sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A festa

"As chances de eu conhecer alguém interessante hoje são mínimas" ela pensava enquanto observava a festa de longe, próxima a varanda do salão. Trajava um vestido longo de tecido fino, perfeitamente costurado cobrindo quase que totalmente o salto que lhe custou caro o suficiente para não ser mostrado naquela ocasião. Mas "caro" não era o problema, estava ainda coberta de acessórios em ouro. Seus longos cabelos estavam milimetricamente presos com a pura finalidade de ressaltar sua linda, jovem e melancólica face (e é claro, não ofuscar o brilho do par de brincos de ouro com detalhes em brilhante em suas orelhas). Estava elegante e impecável, porém, a importância de seu traje não lhe tirava a simplicidade de ser nem de ver as coisas. O local, igualmente importante e fino, também não a fazia mudar. Aliás, muito pelo contrário, aquele ambiente atuava como espelho para que ela pudesse enxergar a si própria verdadeiramente. E esse reflexo a fazia gostar um pouco mais de si mesma.

Apesar de ter algumas certezas consigo própria, nada mudava o fato de que, por algum motivo fatalista, ela estava ali naquele momento, zelando por manter sua essência e integridade, enquanto observava a festa de longe em sua solidão temporária. Não era a mais chic dentre as pessoas dali, mas atraia todos os olhares quando caminhava perdida por aquele enorme salão altamente montado para cenário de seus filmes. Parecia sempre querer se encontrar, ou ser salva, ou fugir. Imaginava-se saltando daquela janela rumo a algum lugar distante, na companhia de alguém que sinceramente lhe compreendesse e também estivesse alheio a tudo aquilo. Mas parecia não haver alheios.

A festa em sua sequência, consumia a todos imperdoavelmente. A iluminação inconstante estava dominada por um jogo de luzes piscantes, acompanhada de músicas eletrônicas dançantes que causavam quase que uma disritmia cerebral numa pessoa com o mínimo de sensibilidade sonora. As pessoas, possuídas pelo ambiente e pelo inconsciente jogo de poses, por vezes desfilavam intencionalmente pelo salão, bebendo e sorrindo enquanto se serviam daquela ração de gente fina. A mesma ração da qual ela também se alimentava e a fazia pensar.

Mas qual haveria de ser o preço pago por ela estar ali? Simplesmente estar, é a resposta. Pois não houve aquela companhia esperada que a salvaria daquele meio. Não houve nenhuma fuga cinematográfica em meio a chuva noturna, com direito a cabelos desfeitos, vestido molhado e brincos e anéis de ouro jogados ao chão da rua. Não houve nenhuma saída triunfal daquele evento, nem heróis, nem sorriso de vitória por experimentar o gosto da chuva frente ao gosto de fugir com quem for que a libertasse. Ninguém a libertou, nem ela própria o fez. Ela se limitou apenas às suas poucas certezas e vãs esperanças naquela varanda vazia, cercada do luxo sem valor daquela festa.

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